Muito tem se falado e discutido a respeito da seleção brasileira masculina, seus resultados, seu momento, se rendeu ou deixou de render o esperado, os esforços e sacrifícios que o grupo fez ou deixou de fazer, etc.
Muito tem se comentado também sobre a seleção brasileira feminina, a dedicação e dificuldade de suas atletas, os resultados e as perspectivas futuras.
Pouco tem se falado das seleções de categoria de base, masculina e feminina, e isso é muito preocupante, na medida que é na base que se consegue moldar e gerar fundamentos nos jovens valores que num futuro próximo naturalmente chegarão na categoria principal.
Culturalmente o Brasil não é conhecido em qualquer esporte por conhecer, participar, apoiar, ou mesmo se interessar por categorias de base, o publico em geral volta suas atenções para as equipes principais, nas tardes de rugby em São Paulo é comum antes do jogo adulto ter preliminares de M19 , M17, e raramente você percebe um publico que presta atenção ao jogo, até mesmo no poderoso futebol é comum observar que isso ocorre, responda rapidamente : quem é o atual campeão mundial de rugby juvenil ?não lembra ou não sabe, bem , então vou fazer uma mais fácil : quem é o atual campeão mundial de futebol juvenil ? respostas difíceis não é mesmo?
Na verdade não é muito culpa de quem assiste ou torce pelo esporte, a visibilidade na imprensa nessas categorias também não ajuda muito na divulgação e conseqüentemente acabamos não acostumando muito em acompanhar ou mesmo cobrar dos órgãos de imprensa com relação a esses resultados.
Acontece que nessa fase da vida muita pressão por resultados pode se mostrar contra-producente e até mesmo prejudicial, dirigentes, treinadores e até mesmo familiares já exercem uma pressão natural por estar envolvidos, imagine se a opinião publica também se insere nesse contexto,de repente você tem perda de confiança e mesmo desinteresse por parte do jovem em continuar na carreira, até porque se na categoria principal muitos não conseguem conviver com criticas justas ou injustas, imagine para um ser humano em formação.
O formato do rugby brasileiro tem tido muitas dificuldades em beneficiar as categorias de base, falta incentivo, criatividade, foco, visão, dedicação para impulsionar os jovens a vôos maiores, já citei em outros artigos, em muitos países é obrigatório ter categoria de base atuante, se não tiver não ganha campeonato principal, se não tiver sequer disputa a divisão principal, isso é apenas um exemplo de como alguns lugares tentam resolver essa questão, precisamos encontrar NOSSA solução.
No Brasil temos visto um aumento considerável de times de base, ótimo que seja assim, mas é preocupante ao mesmo tempo porque pode sucumbir por falta de estrutura, quando me refiro à estrutura quero dizer regulamento, aplicação e fiscalização , e quando não há estrutura as coisas tendem a sair um pouco das rotinas normais, podem ocorrer cancelamento de jogos sem punição, pode acontecer de vermos clubes misturando jogadores no dia dos jogos para cumprir a tabela programada, falta de controle de idade, problemas ou não existência de inscrição de jogadores em clubes, e tudo o mais que normatiza e regulamente o esporte, como podemos esperar rendimento se o mínimo não consegue ser realizado, normas, procedimentos, filosofia do jogo são importantíssimas para o rugby, imagine na categoria de base, nesse universo podem acontecer muitos problemas, ganhar é sempre importante , mas dentro do espírito que norteia as relações inter-clubes, maquiar ou burlar regulamentos serve para criar gerações de novos jogadores extremadas, de um lado os que se beneficiam dessas situações e do outro os que são prejudicados por essas situações e isso não é formar categorias de base, mesmo assim temos muitos clubes e garotos bons atualmente, com princípios corretos e tentando se capacitar para passos mais altos na carreira, sobre eles e sobre os princípios do esporte é que devem todos trabalhar.
No feminino a situação ainda é mais dramática, não há de fato um campeonato regular para ser jogado na categoria principal, imagine na base, existe somente o torneio de seven entre outubro e fevereiro, durante o ano existem heróicas tentativas pelo menos aqui em São Paulo de se organizar amistosos e mesmo torneios de fim de semana na tentativa de manter as equipes treinando e em atividade de competição, ou seja, quais as perspectivas de médio ou longo prazo que podemos esperar? O feminino deve tentar montar equipes de XV, nossas jogadoras e treinadores ja provaram sua capacidade, é hora de ampliar essas possibilidades.
E veja que não mencionei arbitragem, onde hoje temos nomes importantes como Xavier Vouga e outros jovens que passo a passo vão se firmando no rugby sulamericano, mas é inegável que carecemos e muito de mais árbitros, principalmente para as categorias de base, em alguns países também é obrigatório que os clubes apresentem e tenham sempre pessoas para indicar como árbitros, também foi uma forma que encontraram de melhorar a quantidade e logicamente extrair qualidade, precisamos encontrar NOSSA fórmula.
Em resumo, categorias de base são a semente que bem plantadas, cultivadas, olhadas com carinho darão a médio e longo prazo o devido respaldo em termos de resultado nas equipes e seleções principais, a mobilização das equipes deve caminhar nessa direção, alguns clubes tem maior dedicação e história nas categorias de base, porém atualmente faz-se fundamental , aliás a meu ver é questão de obrigatoriedade que pelo menos os grandes clubes tenham no mínimo duas divisões de categoria de base masculino e pelo menos uma de feminino, e de rugby de XV, ou enfrentamos o problema de frente ou estaremos sempre em condições inferiores em relação ao mundo do rugby.
O que você acha disso tudo?

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Antonio Martoni Neto, advogado, radialista , treinador de rugby e comentarista dos Canais ESPN !